ESPETÁCULO PARA NINGUÉM
Por Marco Antônio
No teatro usa-se um cálculo simples para decidir se haverá uma
apresentação quando o público é, deveras, bem menor do que o esperado: Metade
do elenco mais um. Ou seja, um elenco formado por quatro pessoas, se houverem
três espectadores a peça deve acontecer. Esta citação é a propósito de puxar o
assunto do show, nada espetacular, que está acontecendo do Brasil, mais
precisamente no Rio de Janeiro, onde “tropas estelares”, armadas até os dentes
invadem “comunidades” para recolher pinicos cheios. Um completo fiasco. Isso,
sim, para inglês ver. E todo o resto do mundo.
Milhões são gastos, milhares de homens são envolvidos, centenas de
escolas são fechadas, dezenas de pessoas faltam aos trabalhos, e apenas um resultado:
Tiro n’água! O que está havendo para que o resultado seja o esperado pela
população e, até, pelos “planejadores” da ação? Fiz essa pergunta a alguns
conhecidos e a resposta, ainda que de chofre, pronta, é: Descompromisso! De
forma geral, foi mais ou menos isso o que responderam.
O que deveriam fazer, perguntei: “Se quisessem, mesmo, o fariam apenas
em uma comunidade. Da maneira que fazem, estão querendo aparecer, impactar, e
estão dando com os burros n’água. Uma operação séria tomaria de assalto apenas
um alvo. São muitos homens envolvidos. Cercariam toda a comunidade, com as
forças armadas, mandava subir a polícia pelas ruas e vielas, passando o
pente-fino, e enquanto isso helicópteros, desciam homens no topo da favela que
desciam para a base, revistando tudo. E pode mandar espiões avisar que haverá
essa operação. Se a polícia, junto com a força-tarefa, estiver bem montada no
sopé da montanha, nem os ratos escaparão”. Foi a mais bem calculada resposta
que recebi.
Não sou perito em segurança, mas tive que concordar que não é uma
utopia, se fizessem algo parecido. E enquanto o papelão é realizado, o crime
organizado comemora, ao lado de seus espiões, e da banda podre.
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que a taxa de
crimes com morte violenta não é tão alta desde 2009 - na estatística são
considerados homicídio intencional, roubo seguido de morte, lesão corporal
seguida de morte e homicídio após oposição à intervenção policial. Um conjunto
de fatores contribui para a situação.
A violência, em seus mais variados contornos, é um fenômeno histórico na
constituição da sociedade brasileira. A escravidão (primeiro com os índios e
depois, e especialmente, com a mão de obra africana), a colonização
mercantilista, o coronelismo, as oligarquias antes e depois da independência,
somados a um Estado caracterizado pelo autoritarismo burocrático, contribuíram
enormemente para o aumento da violência que atravessa a história do Brasil.
Diversos fatores colaboram para aumentar a violência, tais como a
urbanização acelerada, que traz um grande fluxo de pessoas para as áreas
urbanas e assim contribui para um crescimento desordenado e desorganizado das
cidades. Colaboram também para o aumento da violência as fortes aspirações de
consumo, em parte frustradas pelas dificuldades de inserção no mercado de
trabalho.
Por outro lado, o poder público, especialmente no Brasil, tem se
mostrado incapaz de enfrentar essa calamidade social. Pior que tudo isso é
constatar que a violência existe com a conivência de grupos das polícias,
representantes do Legislativo de todos os níveis e, inclusive, de autoridades
do poder judiciário. A corrupção, uma das piores chagas brasileiras, está
associada à violência, uma aumentando a outra, faces da mesma moeda.
As causas da violência são associadas, em parte, a problemas sociais
como miséria, fome, desemprego. Mas nem todos os tipos de criminalidade derivam
das condições econômicas. Além disso, um Estado ineficiente e sem programas de
políticas públicas de segurança, contribui para aumentar a sensação de
injustiça e impunidade, que é, talvez, a principal causa da violência.
A violência se apresenta nas mais diversas configurações e pode ser
caracterizada como violência contra a mulher, a criança, o idoso, violência
sexual, política, violência psicológica, física, verbal, dentre outras. Em um
Estado democrático, a repressão controlada e a polícia têm um papel crucial no
controle da criminalidade. Porém, essa repressão controlada deve ser
simultaneamente apoiada e vigiada pela sociedade civil.
Não quero e nem posso encerrar um assunto, de tal relevância e que traz
resultados tão danosos à toda a sociedade, mas quero oferecer a ideia citada na
resposta de um dos meus pesquisados, como uma proposta a ser avaliadas pelos
peritos no assunto e, quem sabe, até aplicada. Que mal teria? Deste jeito,
espetaculoso, é que não é!

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