Visagens e assombrações
A vida dos ribeirinhos amazônidas é cheia de
aventuras e causos, principalmente sobre visagens e assombrações. Muitas desses
estórias chegam as grandes cidades da Amazônia, contadas de forma oral pelos
habitantes mais velhos e elas se modificam de acordo com o narrador e passam a
fazer parte da cultura local tornando-se crenças, não só do povo interiorano
como os do centro urbano.
Tanto no interior quando nas cidades ninguém
escapa à fascinação do sobrenatural. Não há menino que deixe de ouvir estórias
fantásticas, transmitidas pelas amas, empregadas domésticas, geralmente pessoas
vindas do interior do Estado, onde sobrevive intensa a tradição oral dessas
lendas. Mesmo sob o impacto de outros valores culturais que hoje se manifestam
através de contatos através da internet, ainda persistem na memória do povo
essas estórias populares.
Destaque-se que temos de nos preocupar que
muito das novas gerações reina o desconhecimento das histórias e das crenças
que compõem a sua cultura, bem como sobre o desinteresse de contar/repassar
essas estórias às novas gerações.
Matinta Perera é uma história conhecida não
somente pelos nortistas, pois hoje consta do folclore brasileiro e é ministrada
em salas de aulas e faz parte da cultura local e como toda lenda, tem algumas
versões. Vamos conhecer as duas mais famosas:
1ª – Trata-se
de uma velha que a noite se transforma em um pássaro agourento que pousa sobre
os muros e telhados das casas e se põe a assobiar e só para quando o morador,
já muito enfurecido pelo estridente assobio, lhe promete algo para que pare
(geralmente cigarro, mas também pode ser café, cachaça ou peixe) assim a
Matinta para e voa, no dia seguinte a velha vem até a casa do morador
perturbado para cobrar o combinado, caso o prometido seja negado uma desgraça
acontece na casa do que fez a promessa não cumprida.
2ª – Há muito tempo atrás, no Norte do Brasil, morava uma moça chamada
Matinta Perera. Era muito alegre e feliz, e seu passatempo predileto era fumar,
porém ela tinha um problema: um marido muito furioso e ciumento.
Um certo dia, quando Matinta estava grávida, seu marido chegou bêbado e
bravo em casa. Os dois tiveram uma discussão feia e o homem acabou matando a
esposa. Só que Matinta era protegida por forças sobrenaturais, e recebeu um
dom: seu espírito ganhou a capacidade de se transformar em mulher de dia e em
coruja de noite.
Como ela gostava de fumar, de dia ela batia nas residências pedindo
fumo. Se alguma pessoa negasse a dar o fumo para Matinta, ela voltava de noite
para colocar o feto de sua criança morta na porta da casa desta criatura.
Tem mais, quando alguém de alguma família estava para morrer, Matinta
tinha a capacidade de perceber este fato. E por isto, de noite, esta moça
virava uma pequena coruja e ia cantar perto da casa desta família.
Não sou muito de acreditar em criaturas
monstruosas e espíritos, mas quando nos deparamos com uma situação
incontestável é difícil não crer. Lembro-me bem dessas estórias na minha
infância, quando viajava com minha avó Minerva pelas águas do Rio Araguari,
quando ia passar as férias escolar na Fazenda Santarém, propriedade dela e
escutava antes de dormir algumas estórias de familiares, que as narravam para
meter medo ou crendice nos mais jovens, fato que aquilo não me assustou em
nada, mas fiquei curioso em ouvi-las até o final. A estória da Matinta Perera
se confunde com a da “Rasga Mortalha”.
A rasga mortalha é o nome popular que se dá,
na região norte e nordeste, à uma pequena coruja, de cor branca, de voo baixo.
O atrito de suas asas, ao voar, produzem o som de um pano que está sendo rasgado.
O povo acredita que quando ela passa sobre a casa de alguma pessoa doente ela
esteja rasgando a mortalha do doente, que assim está prestes à morrer. A rasga
mortalha só sai na boca da noite.
E até hoje, quando escuto o grito de coruja
sobre a casa me arrepio e relembro das estórias da minha infância. São muitas
lendas e superstições de visagens e assombrações e quem sou eu para duvidar?!


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