sexta-feira, 29 de setembro de 2017

ARTIGO DO REI




Visagens e assombrações

A vida dos ribeirinhos amazônidas é cheia de aventuras e causos, principalmente sobre visagens e assombrações. Muitas desses estórias chegam as grandes cidades da Amazônia, contadas de forma oral pelos habitantes mais velhos e elas se modificam de acordo com o narrador e passam a fazer parte da cultura local tornando-se crenças, não só do povo interiorano como os do centro urbano.
Tanto no interior quando nas cidades ninguém escapa à fascinação do sobrenatural. Não há menino que deixe de ouvir estórias fantásticas, transmitidas pelas amas, empregadas domésticas, geralmente pessoas vindas do interior do Estado, onde sobrevive intensa a tradição oral dessas lendas. Mesmo sob o impacto de outros valores culturais que hoje se manifestam através de contatos através da internet, ainda persistem na memória do povo essas estórias populares.
Destaque-se que temos de nos preocupar que muito das novas gerações reina o desconhecimento das histórias e das crenças que compõem a sua cultura, bem como sobre o desinteresse de contar/repassar essas estórias às novas gerações.  
Matinta Perera é uma história conhecida não somente pelos nortistas, pois hoje consta do folclore brasileiro e é ministrada em salas de aulas e faz parte da cultura local e como toda lenda, tem algumas versões. Vamos conhecer as duas mais famosas:  

1ª – Trata-se de uma velha que a noite se transforma em um pássaro agourento que pousa sobre os muros e telhados das casas e se põe a assobiar e só para quando o morador, já muito enfurecido pelo estridente assobio, lhe promete algo para que pare (geralmente cigarro, mas também pode ser café, cachaça ou peixe) assim a Matinta para e voa, no dia seguinte a velha vem até a casa do morador perturbado para cobrar o combinado, caso o prometido seja negado uma desgraça acontece na casa do que fez a promessa não cumprida.
2ª – Há muito tempo atrás, no Norte do Brasil, morava uma moça chamada Matinta Perera. Era muito alegre e feliz, e seu passatempo predileto era fumar, porém ela tinha um problema: um marido muito furioso e ciumento.
Um certo dia, quando Matinta estava grávida, seu marido chegou bêbado e bravo em casa. Os dois tiveram uma discussão feia e o homem acabou matando a esposa. Só que Matinta era protegida por forças sobrenaturais, e recebeu um dom: seu espírito ganhou a capacidade de se transformar em mulher de dia e em coruja de noite.
Como ela gostava de fumar, de dia ela batia nas residências pedindo fumo. Se alguma pessoa negasse a dar o fumo para Matinta, ela voltava de noite para colocar o feto de sua criança morta na porta da casa desta criatura.
Tem mais, quando alguém de alguma família estava para morrer, Matinta tinha a capacidade de perceber este fato. E por isto, de noite, esta moça virava uma pequena coruja e ia cantar perto da casa desta família.
Não sou muito de acreditar em criaturas monstruosas e espíritos, mas quando nos deparamos com uma situação incontestável é difícil não crer. Lembro-me bem dessas estórias na minha infância, quando viajava com minha avó Minerva pelas águas do Rio Araguari, quando ia passar as férias escolar na Fazenda Santarém, propriedade dela e escutava antes de dormir algumas estórias de familiares, que as narravam para meter medo ou crendice nos mais jovens, fato que aquilo não me assustou em nada, mas fiquei curioso em ouvi-las até o final. A estória da Matinta Perera se confunde com a da “Rasga Mortalha”.
A rasga mortalha é o nome popular que se dá, na região norte e nordeste, à uma pequena coruja, de cor branca, de voo baixo. O atrito de suas asas, ao voar, produzem o som de um pano que está sendo rasgado. O povo acredita que quando ela passa sobre a casa de alguma pessoa doente ela esteja rasgando a mortalha do doente, que assim está prestes à morrer. A rasga mortalha só sai na boca da noite.

E até hoje, quando escuto o grito de coruja sobre a casa me arrepio e relembro das estórias da minha infância. São muitas lendas e superstições de visagens e assombrações e quem sou eu para duvidar?!

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