O COMBATE AO ABUSO
DO PODER ECONÔMICO NAS ELEIÇÕES – III
BESALIEL RODRIGUES
Continuando nosso tema, as iniciativas populares, diz Dyrceu Cintra, buscam
“dois objetivos interligados: 1) desenvolve um processo de educação política,
por meio de debates e atos de coletas de assinaturas, em todo o país, de modo a
mostrar que o eleitor tem poder e que a compra de votos significa a venda da
consciência e da liberdade; 2) leva aos políticos um projeto de interesse da
sociedade, visando disciplinar mais adequadamente sua conduta como candidatos e
como agentes públicos”. Conclui, referindo-se à Iniciativa Popular comentada na
oportunidade anterior, dizendo que “Mais do que um simples projeto de lei, a
proposta leva em conta que o Brasil optou por uma democracia não apenas
representativa, mas também participativa, como informa o art . 12, parágrafo
único, da Constituição.” (Ver Ciência Jurídica, ano V, n. 50,
novembro/98, artigo “Combatendo a corrupção eleitoral”.).
A vontade do povo virou lei. Vimos cumprir em nossos dias uma conclusão de
Hamurabi, dita milhares de anos atrás: “Que a última vontade do povo tenha
força de lei” (Antonio Pedro Tota e Pedro Ivo de Assis Bastos,História Geral,
cit., p. 41.).
Em articulado escrito intitulado financiamento das campanhas eleitorais no
Brasil, David Fleischer, p. 176-81, lançou algumas propostas de mudanças e
sugestões para se combater o abuso do poder econômico em nosso processo
eleitoral. São elas: 1) Mudança do sistema eleitoral; 2) Aperfeiçoamento da
legislação partidária; 3) Nova legislação para as licitações públicas; 4)
Criação de Auditoria Geral da União, com autonomia e independências aos moldes
da Procuradoria Geral da República; 5) Revigoramento da Receita Federal; 6)
Legislação específica sobre financiamento de campanhas; e 7) Lei eleitoral
perene.
Nossas sugestões de combate ao abuso do poder econômico no processo eleitoral
são diferentes da de Fleischer, mas, não se contradizem, ao contrário,
somam-se.
Vejamos: Além da via da iniciativa popular, prevista em nossa Constituição,
defendo outras formas de atuação e combate às ações predadoras da democracia,
dentre as quais arrolamos as seguintes:
a)
Educação: A sociedade precisa reivindicar dos governos federal,
estaduais, distrital e municipais melhoramentos no sistema educacional de nosso
país. É sabido de todos que, sem educação, o comportamento cívico da sociedade
é alterado, tornando-se o povo politicamente despreparado e marginalizado no
processo eleitoral.
Esta premissa não é nova, remonta ao início deste século. José Pereira de
Macedo e Paulo Ottoni de Castro Maya, em 1927, defendiam a tese de que é
através da educação que conseguiremos alcançar maior qualidade nas escolhas do
povo nos pleitos políticos (Tese n. 67: “O problema do ensino pelo estímulo do
título eleitoral dignificado”. In I Conferência Nacional de Educação –
Curitiba, 1927. Orgs. Maria José Franco Ferreira da Costa, Denilson Roberto
Shena e Maria Auxiliadora Schmidt, Brasília: INEP, 1997, p. 399-404).
A sociedade não deve esperar, somente, a boa vontade dos governos, que muitas
vezes se apresentam relapsos com a educação do povo. É preciso termos ações
autônomas, ou seja, a própria sociedade poderá promover a elevação do nível de
sua educação, cívica e política, primordialmente. A politização e. g. é um
processo sem fim, que nunca há de chegar a um termo, nunca poderá ser uma
politização total", Jacques Derrida,Gesetzeskraft, 1991, p.
58 apud Friedrich Müller, Quem é o povo?,
cit., p. 41.
A disseminação de informações eleitorais, livre da interferência oficial, com
recursos próprios, por meio de ações comunitárias, com estratégias
alternativas, etc., é caminho aberto para o combate das mazelas que porventura
queiram contaminar o processo eleitoral.
Não podemos viver eternamente como “servos” do poder, da lei e da vontade
política de nossos governantes; precisamos romper com essa condição e
transformarmo-nos em agentes históricos de transformação, como ensinado nas
salas de aulas das Universidades, praticando ações que modifiquem o mundo em
que vivemos. Continuaremos na próxima oportunidade.
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