sábado, 6 de outubro de 2018

Artigo do Rei



Minha vida com idosos e agora sou um deles

Hoje já tenho 64 anos, vou mudar de idade no dia 5 de novembro, Dia Nacional da Cultura, do Cinema Brasileiro  e da Língua Portuguesa a data do nascimento do Jurista brasileiro, Rui Barbosa de Oliveira, que veio ao mundo em 5 de novembro de 1849, e que foi uma figura exponencial da ciência e da cultura no Brasil e no mundo. Acho que por isso foi que adquiri o habito de ler e desde a tenra infância a frequentar bibliotecas e adquirir qualquer revistas e livros para meu deleito mental. Fui um dos assíduos trocador de revista - 'os gibis' - nas portas do Cine João XXIII e Cine Macapá.
Bom, vamos deixar essas reminiscências da adolescência e voltar a maturidade, e entrando no clichê da 'terceira idade' ou 'melhor idade', essa última a pior de todas, pois para a maioria dos idosos é a 'pior idade', abandonados pelos filhos, desrespeitados pelos netos e pela própria sociedade, violentados física e psicologicamente. 'Melhor 'idade', hum...
Bom, cresci e fui criado pelos meu avós, Mestre Benedito e Dona Nenê, que já estavam na meia idade quando nos receberam em seu lar e assim mesmo enfrentaram esse desafio e o fizeram bem feito e com sucesso. Ambos já partiram para outro plano, ele com 74 anos e ela com 98 anos. A minha avó ainda viveu mais um quarto de século e viúva, passamos a conviver uma década, ela cuidando de mim e eu dela. Logo depois passou a ser cuidada amorosamente pela minha irmã Professora Maria das Graças, até seu último suspiro.
Logo em seguida tive uns tsunamis na minha vida e retornei ao lar da minha mãe biológica professora Zoraide Coelho do Nascimento, de quem sempre tive a presença marcante, não vivíamos juntos no dia a dia, mais convivíamos juntos no amor e isso se completou quando ao almoçar com ela, pois já trabalhava no Tribuna Amapaense e sua sede era próxima da residência materna e facilitava minha presença diária tanto que passei a dormir também e fui percebendo que aquela mulher forte e guerreira que já estava nas casas dos 70 e poucos anos, ainda comandava seu lar com controle total e tinha a bússola sempre mostrando o norte de nossa família, mais já apresentava sinais da idade em dificuldades de andar, carregar peso e ter segurança na manipulação das panelas no fogão, de vez em quando me apresentava queimaduras pequenas, mas não reclamava e não deixava de ter pontualmente o almoço pronto as 12 horas e não um prato só mais para cada gosto de um filho que ela adivinhava que veria almoçar e acertava sempre.
Mas essa situação de insegurança me despertou um sentimento de 'cuidar' para que ela não se machucasse e devagar fui antecipando alguns afazeres sem mostrar que estava tirando isso dela, pois ela não aceitaria ser dependente, como nunca aceitou.

 "Quando um idoso se sente querido, ele certamente é menos teimoso, menos ranzinza e será mais cordial e compreensivo". Com isso descobri  que a mesma paciência deve ser empregada quando um filho percebe que aquele tapete ou móvel vai colocar a segurança de seus pais em risco, mudar ou retirar, mas sem impor, conversar e convenser. Decidir sobre o que sempre foi deles, como a arrumação da casa, é invasivo, despersonaliza o ambiente e incomoda o idoso. Mas você conhece seus pais e saberá como falar para não desvalorizar os argumentos deles. Minha mãe não gostava de que mudasse nada sem consultá-la, principalmente devido ela ser independente, gostava de ir no lugar onde deixava o copo e ela estava no mesmo lugar a décadas. E esse cuidado também era realizado pelos meus outros irmãos e netos.
E chegou, graças a Deus, de eu ficar os três últimos anos da vida de minha amada mãe ao lado dela, literalmente, e fiz tudo para que ela tivesse tranquilidade, paz, felicidade em seus últimos anos entre nós, encerrados aos 88 anos, no dia 22 de junho de 2018.
Paralelo a isso, tive mais amizades com pessoas mais velhas de que eu. Com professores pioneiros do Amapá, durante a jornada na educação, como: Aciné Garcia, Leonil Amanhãs, Ana Alves, Silvio Del Castillo, Anni Viana da Costa, entre outros. Meus vizinhos como Dona Celerina, chef de cozinha da residência governamental, Dona Josefa, lavadeira e marabaxeira. Onde chego já me identifico com os da 'terceira idade' e com eles me relaciono muito bem. Espero que agora que já estou contando a chegada dos setenta anos, possa ser um idoso menos chato e rabugento, que ainda sou, mas tenho de começar a mudar, para não ter de ficar sozinho. E poder receber o carinho dos que me cercam e que sinto que me amam.

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